A nutrição tem um papel central na preparação e recuperação de crianças com cardiopatias congênitas submetidas à cirurgia cardíaca.
Além de contribuir para o crescimento adequado e o fortalecimento imunológico, um bom estado nutricional está diretamente associado a melhores desfechos clínicos e menor tempo de internação.
Por isso, o acompanhamento nutricional deve ser parte estruturante da linha de cuidado em cardiologia pediátrica.

Importância da nutrição no preparo cirúrgico de crianças com cardiopatias
Crianças com cardiopatias congênitas, especialmente aquelas com fluxo pulmonar diminuído, como ocorre nas cardiopatias cianóticas, ou com insuficiência cardíaca congestiva, apresentam maior risco de desnutrição.
O gasto energético dessas crianças pode estar aumentado em até 40% em relação ao de uma criança saudável, em decorrência do aumento do trabalho respiratório e das adaptações hemodinâmicas.
Além disso, são comuns dificuldades para mamar ou comer devido à fadiga, ao tempo de alimentação prolongado, frequentemente superior a 30 minutos, à inapetência e ao uso de diuréticos, que podem levar a desequilíbrios eletrolíticos e perdas calóricas.
A presença de desnutrição, mesmo leve, está associada a:
- Aumento da mortalidade cirúrgica;
- Risco elevado de complicações infecciosas;
- Retardo na cicatrização;
- Necessidade prolongada de ventilação mecânica;
- Maior tempo de internação em UTI e enfermaria.
Estudo brasileiro realizado com crianças submetidas à cirurgia cardíaca demonstrou que 70% delas apresentavam algum grau de comprometimento nutricional no momento da internação, o que reforça a necessidade de intervenção precoce.
Para as famílias, isso significa que observar sinais como baixo ganho de peso, cansaço fácil para mamar, recusas alimentares e uso prolongado de mamadeiras ou papas deve motivar a busca por avaliação nutricional especializada. Alimentar bem uma criança com uma cardiopatia é uma tarefa difícil, mas essencial.
Em casa, podem ser utilizados recursos como:
- Enriquecimento de papas com leite em pó, azeite, leite condensado ou fórmulas especiais;
- Uso de utensílios adaptados para crianças que se cansam durante a alimentação, como copos com fluxo controlado e colheres menores;
- Oferta de alimentos em pequenas porções e com maior frequência;
- Registro mensal do peso e da estatura.
Toda criança com cardiopatia moderada ou grave, ou que esteja em preparação para cirurgia, deve ser avaliada por um nutricionista para definição do estado nutricional e das intervenções adequadas, mesmo que aparente estar se alimentando bem.
Desafios alimentares em crianças com doenças cardíacas
As dificuldades nutricionais podem se apresentar de diversas formas:
- Baixo ganho ponderal ou perda de peso;
- Fadiga durante a alimentação;
- Uso de sondas para suporte enteral;
- Vômitos frequentes e distensão abdominal;
- Intolerâncias alimentares associadas.
Essas condições exigem um planejamento alimentar cuidadoso e individualizado.
A priorização do conforto alimentar e a manutenção da via oral, sempre que possível, são essenciais para preservar o vínculo familiar e o desenvolvimento motor oral.
Estratégias nutricionais antes da cirurgia cardíaca
No perioperatório, a intervenção nutricional tem três objetivos principais: otimizar as reservas proteico-calóricas, modular a resposta inflamatória e reduzir o risco de complicações infecciosas.
Para isso, algumas metas podem ser estabelecidas:
- Ingestão calórica total: entre 110 e 130 kcal/kg/dia, podendo chegar a 150 kcal/kg/dia nos casos mais graves;
- Oferta proteica: pelo menos 2 a 3 g/kg/dia, conforme a tolerância gastrointestinal e a idade;
- Suporte vitamínico e mineral: correção de deficiências de ferro, vitamina D, zinco, vitamina A e ácido fólico, que são frequentes nesses pacientes.
Opções práticas para atingir as metas nutricionais
- Uso de fórmulas hipercalóricas, como opções com 1,0 a 1,5 kcal/mL, em crianças com ingestão oral reduzida;
- Enriquecimento da dieta com óleo vegetal, leite em pó, farinhas lácteas ou suplementos infantis orais;
- Fracionamento da alimentação em seis a oito pequenas refeições diárias;
- Inclusão de lanches energéticos entre as principais refeições, como vitamina de fruta com leite, mingau ou iogurte com aveia;
- Estímulo positivo durante as refeições, em um ambiente calmo e com utensílios apropriados.
Seguimento nutricional no pré-operatório
- Avaliação semanal ou quinzenal com o nutricionista;
- Registro doméstico do peso e da estatura;
- Diário alimentar com registro de tolerância e recusas;
- Definição de metas realistas de ganho de peso, que podem ser de 15 a 20 g/dia para lactentes, conforme avaliação individual.
Dicas para as famílias
- Ofereça os alimentos preferidos da criança de forma adaptada e nutritiva;
- Utilize alimentos concentrados, com alto valor calórico em pequeno volume;
- Evite forçar a criança a comer, mas estimule a alimentação com paciência e rotina;
- Mantenha horários regulares para as refeições;
- Estimule a participação da criança no preparo dos alimentos, quando possível.
O sucesso da cirurgia cardíaca está profundamente ligado à estabilidade metabólica e ao estado nutricional da criança.
Investir em uma nutrição adequada é preparar o organismo para uma recuperação mais segura e eficaz.

Cuidados alimentares no pós-operatório: fases e recomendações
A nutrição no pós-operatório imediato deve ser conduzida de forma estratégica e individualizada, com o objetivo de promover a cicatrização, restaurar as reservas energéticas e apoiar a recuperação funcional da criança.
Fase 1: pós-operatório imediato — dias 1 a 3
- Priorizar a introdução precoce da nutrição enteral, mesmo que seja necessária a utilização de sonda nasogástrica;
- Manter o suporte venoso quando houver instabilidade hemodinâmica ou intolerância intestinal;
- Monitorar a diurese, a distensão abdominal e os resíduos gástricos;
- Realizar a progressão gradual da dieta conforme a tolerância, iniciando com 10 a 20 mL/kg/dia e avançando até atingir as necessidades nutricionais.
Fase 2: estabilização e transição — dias 4 a 10
- Retomar a alimentação por via oral quando o quadro clínico permitir, com suporte da fonoaudiologia, se necessário;
- Utilizar dieta pastosa ou líquida hipercalórica, com volume fracionado;
- Reforçar a oferta proteica, com pelo menos 2 g/kg/dia, conforme orientação profissional;
- Introduzir suplementos orais proteico-calóricos quando houver indicação.
Fase 3: recuperação ambulatorial
- Elaborar um planejamento nutricional domiciliar com metas de recuperação do peso e do crescimento;
- Realizar avaliação quinzenal ou mensal com o nutricionista;
- Orientar a família sobre o preparo de alimentos ricos em energia e proteínas;
- Reavaliar a aceitação alimentar e realizar ajustes progressivos na dieta.
Pontos-chave para o pós-operatório
- Monitorar sinais de intolerância alimentar, como náuseas, distensão abdominal e recusa alimentar;
- Priorizar a manutenção da via oral com estratégias lúdicas e envolvimento da família;
- Garantir hidratação adequada, respeitando o controle hídrico orientado pela equipe;
- Associar o plano nutricional à reabilitação motora e respiratória.
A atuação contínua da equipe multiprofissional, com foco em metas nutricionais individualizadas, é essencial para evitar perdas ponderais, acelerar a reabilitação e melhorar os desfechos clínicos no pós-operatório cardíaco pediátrico.
Papel do nutricionista na recuperação da criança
O nutricionista clínico especializado em cardiopediatria é um dos pilares da assistência integral ao paciente cardíaco pediátrico.
Sua atuação vai além do cálculo calórico: envolve a análise do estado nutricional, o planejamento estratégico da alimentação e a participação ativa nas decisões clínicas em conjunto com a equipe multiprofissional.
Principais responsabilidades do nutricionista
- Realizar avaliação nutricional completa, incluindo antropometria, histórico alimentar e exames laboratoriais;
- Estabelecer metas nutricionais específicas conforme a fase da doença, a idade e a condição clínica;
- Escolher a melhor via de alimentação, oral, enteral ou parenteral, com base na segurança e na efetividade;
- Ajustar as prescrições alimentares conforme a tolerância, a aceitação e a evolução clínica;
- Identificar sinais precoces de risco nutricional e propor intervenções oportunas;
- Orientar pais e cuidadores sobre o preparo e a oferta dos alimentos no domicílio.
O nutricionista também tem papel essencial na transição do ambiente hospitalar para o domiciliar, orientando o seguimento ambulatorial, garantindo a continuidade do cuidado e ajudando a prevenir reinternações por complicações nutricionais.
Quando bem conduzida, a abordagem nutricional contribui para melhores resultados clínicos, cicatrização mais eficiente, menor incidência de infecções e reabilitação mais ágil e segura.

Perguntas frequentes sobre nutrição em cirurgia cardíaca pediátrica
Como a alimentação influencia na recuperação após a cirurgia cardíaca?
A alimentação adequada no pós-operatório contribui diretamente para a recuperação clínica.
Ela promove a cicatrização dos tecidos, fortalece a imunidade, ajuda a prevenir infecções e favorece a manutenção da massa muscular, que é importante para o desmame da ventilação mecânica e para a reabilitação física.
Crianças com um estado nutricional adequado podem apresentar menor tempo de internação, menos complicações e melhor resposta à reabilitação.
Além disso, a nutrição favorece o crescimento e o desenvolvimento neuropsicomotor.
Quais alimentos são recomendados no pré e pós-operatório?
Não existe uma dieta padrão para todas as crianças, mas alguns alimentos podem ser priorizados devido ao seu valor energético e proteico.
No pré-operatório, podem ser recomendados:
- Leite integral e derivados;
- Queijos;
- Ovos;
- Carnes;
- Leguminosas, como feijão e lentilha;
- Frutas combinadas com aveia ou mel, quando apropriado para a idade;
- Mingaus enriquecidos;
- Fórmulas hipercalóricas infantis, quando prescritas.
No pós-operatório, quando há reintrodução da alimentação por via oral, podem ser oferecidas preparações pastosas, líquidas ou semissólidas, ricas em calorias e proteínas, como sopas cremosas, purês enriquecidos, vitaminas preparadas com leite e frutas e suplementos orais.
A progressão da dieta deve respeitar a tolerância gastrointestinal e ser orientada pelo nutricionista e pelo fonoaudiólogo.
Quando é necessário o uso de suplementação nutricional em crianças cardiopatas?
A suplementação é indicada quando a alimentação habitual não consegue suprir as necessidades nutricionais da criança, mesmo após a adoção de estratégias de enriquecimento alimentar.
Ela pode ser necessária em pacientes com:
- Baixo peso;
- Dificuldade de aceitação alimentar;
- Fadiga durante as refeições;
- Ganho de peso insuficiente;
- Doenças associadas;
- Necessidade de melhora nutricional em um período curto antes da cirurgia.
A suplementação pode ser administrada por via oral, com fórmulas industrializadas, ou por via enteral, utilizando uma sonda.
O tipo de suplemento, a quantidade e a forma de administração devem ser definidos por um nutricionista, com base em critérios técnicos e em uma avaliação clínica detalhada.
Conheça dra. Marina Fantini
Dra. Marina Fantini é altamente qualificada e carrega consigo um amplo conhecimento nas áreas de pediatria e cardiologia.
É coordenadora da Cardiologia Pediátrica e ECMO na Rede Mater Dei, CEO da Ecmo Minas, professora do curso de medicina da Faculdade de Ciências Médicas e da pós-graduação no Instituto de Ensino e Pesquisa da Santa Casa de Belo Horizonte.
É também membro titular da Sociedade Brasileira de Pediatria, membro da Sociedade Brasileira de Cardiologia e Especialista em ECMO pela ELSO.
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