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Dra. Marina Fantini

Vacinas para crianças cardiopatas: quais são indicadas e quais cuidados tomar?

Vacinas para crianças cardiopatas: quais são indicadas e quais cuidados tomar?

As vacinas para crianças cardiopatas fazem parte dos cuidados necessários para proteger o coração e prevenir complicações.

Quando uma família recebe o diagnóstico de uma cardiopatia, é natural que a atenção se volte para exames, consultas com a cardiologia pediátrica e para a possibilidade de cirurgia.

Em meio a tudo isso, a vacinação pode acabar ficando em segundo plano.

No entanto, manter a caderneta de vacinação atualizada não é apenas uma obrigação do calendário.

Para uma criança com cardiopatia, a imunização ajuda a prevenir infecções capazes de provocar descompensações, internações e até o adiamento de procedimentos cirúrgicos.

Vacinar também é cuidar do coração.

Neste artigo, você entenderá quais vacinas merecem atenção especial, quando procurar o CRIE e quais cuidados devem ser considerados antes e depois de uma cirurgia cardíaca infantil.

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Por que crianças cardiopatas precisam de atenção redobrada com infecções?

O coração de uma criança com cardiopatia, em muitos casos, trabalha em condições diferentes: menor reserva funcional, sobrecarga de volume ou pressão, circulação pulmonar alterada ou recuperação de uma cirurgia recente.

Isso significa que, diante de uma infecção que, para outra criança, poderia ser controlada em casa, o organismo do pequeno cardiopata pode entrar em desequilíbrio rapidamente.

Uma gripe não é apenas uma virose para quem tem insuficiência cardíaca. Uma bronquiolite causada pelo vírus sincicial respiratório, o VSR, pode levar à internação prolongada em uma criança com hipertensão pulmonar.

Uma pneumonia pneumocócica pode descompensar uma criança em pós-operatório recente.

A COVID-19, mesmo quando se apresenta de forma leve para a maioria das crianças, exige mais do coração e dos pulmões, algo que pacientes com reserva funcional limitada nem sempre conseguem oferecer.

Algumas situações exigem cuidado ainda maior:

  • Cardiopatias acompanhadas de insuficiência cardíaca;
  • Hipertensão pulmonar;
  • Cianose;
  • Pós-operatório recente;
  • Uso de ECMO;
  • Transplante cardíaco;
  • Síndromes genéticas associadas, como a síndrome de Down;
  • Prematuridade;
  • Internações frequentes.

Nesses contextos, prevenir infecções deixa de ser uma escolha e passa a fazer parte do plano terapêutico.

As vacinas de rotina continuam sendo a base da proteção

Antes de qualquer conversa sobre vacinas especiais, é preciso reforçar o básico: a criança cardiopata deve receber todas as vacinas do calendário do Programa Nacional de Imunizações, o PNI, sempre que não houver contraindicação técnica.

Atrasar vacinas apenas porque a criança é cardiopata, sem justificativa médica, não é proteger. É expor a criança a riscos evitáveis.

Algumas situações específicas exigem avaliação individualizada antes da vacinação, como:

  • Uso de altas doses de corticoides;
  • Uso de medicamentos imunossupressores após transplante;
  • Programação de cirurgia cardíaca próxima;
  • Pós-operatório recente;
  • Tratamento com imunoglobulinas ou outros hemoderivados.

Vacinas de vírus vivo atenuado, como tríplice viral, varicela e febre amarela, exigem atenção especial em pacientes imunossuprimidos e podem precisar ser adiadas.

Essa decisão deve ser tomada pela equipe assistente em conjunto com o pediatra, o cardiopediatra e, quando necessário, com o Centro de Referência para Imunobiológicos Especiais, o CRIE.

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Vacinas que merecem atenção especial em crianças cardiopatas

Algumas vacinas são particularmente relevantes para crianças com cardiopatias.

Os esquemas, intervalos e números de doses dependem da idade, do histórico vacinal, do diagnóstico, da condição clínica e da disponibilidade dos imunobiológicos.

Por isso, as recomendações devem ser definidas pelo profissional responsável pelo acompanhamento da criança, com participação do CRIE quando houver indicação.

Vacinas pneumocócicas

A proteção contra o pneumococo é especialmente importante para crianças cardiopatas, porque essa bactéria está entre as principais causas de pneumonia grave, sepse e meningite na infância.

Existem diferentes vacinas pneumocócicas conjugadas, como VPC10, VPC13, VPC15 e VPC20, com disponibilidades distintas no SUS e na rede privada.

Também existe a vacina pneumocócica polissacarídica 23-valente, a VPP23, indicada em situações específicas.

Em crianças com cardiopatia crônica, é comum que o esquema combine vacinas conjugadas com a VPP23, conforme os critérios definidos pelo CRIE.

Vacina contra influenza

A vacinação contra influenza deve ser realizada anualmente.

Essa é uma das vacinas mais importantes para crianças com cardiopatia, especialmente aquelas que apresentam insuficiência cardíaca, hipertensão pulmonar ou cianose.

A imunização anual reduz o risco de formas graves da doença, internações e descompensações cardiovasculares.

Vacina contra COVID-19

O Programa Nacional de Imunizações recomenda a vacinação de rotina contra COVID-19 para crianças de 6 meses a menos de 5 anos.

Para crianças com condições clínicas especiais, incluindo cardiopatias crônicas, podem existir orientações específicas sobre o número de doses e os reforços.

Como essas recomendações podem mudar ao longo do tempo, é importante consultar a equipe assistente para verificar o esquema vigente.

Proteção contra o vírus sincicial respiratório

O vírus sincicial respiratório é uma das principais causas de bronquiolite na infância e pode provocar quadros especialmente graves em crianças com cardiopatia com repercussão hemodinâmica.

Atualmente, existem duas estratégias de proteção:

  • Vacinação da gestante: uma dose administrada entre 24 e 36 semanas de gravidez, com o objetivo de proteger o bebê durante os primeiros meses de vida;
  • Nirsevimabe: anticorpo monoclonal de longa duração oferecido em dose única para proteção durante a sazonalidade do vírus.

O nirsevimabe vem substituindo o palivizumabe em determinados contextos. Crianças com cardiopatia congênita com repercussão hemodinâmica demonstrada estão entre os grupos prioritários para o recebimento do imunobiológico pelo SUS, conforme as diretrizes vigentes do Ministério da Saúde.

Vacinas meningocócicas

A prevenção contra meningite e sepse provocadas pelo meningococo faz parte do calendário básico, por meio da vacina meningocócica C conjugada, e do calendário do adolescente, com a vacina ACWY.

Para crianças com condições clínicas especiais, o CRIE pode disponibilizar a vacina meningocócica ACWY conjugada e, em situações específicas, a vacina meningocócica B.

A indicação depende dos critérios técnicos vigentes e da avaliação individual da criança.

Vacinas contra hepatites A e B, varicela e tríplice viral

As vacinas contra as hepatites A e B fazem parte do calendário de rotina e são especialmente relevantes para crianças cardiopatas com previsão de cirurgia, possibilidade de utilização de hemoderivados ou histórico de internações prolongadas.

As vacinas contra varicela e tríplice viral, que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, são produzidas com vírus vivo atenuado.

Elas são fundamentais para a proteção infantil, mas precisam ser avaliadas individualmente em crianças imunossuprimidas, como aquelas que passaram por transplante cardíaco.

Nesses casos, a vacinação pode ser temporariamente contraindicada. A proteção da criança passa a depender ainda mais da imunização das pessoas que convivem com ela.

Vacina contra varicela em crianças que usam AAS

O uso crônico de ácido acetilsalicílico, o AAS, é relativamente comum na cardiologia pediátrica.

Esse medicamento pode ser utilizado por crianças com:

  • Doença de Kawasaki;
  • Pós-operatório de Fontan;
  • Pós-operatório de Glenn;
  • Shunts;
  • Stents;
  • Próteses intracardíacas.

Existe uma preocupação clássica com o risco teórico de síndrome de Reye em crianças que utilizam AAS e recebem vacinas de vírus vivo atenuado.

A orientação tradicional presente no Manual dos CRIE e nas bulas é suspender o AAS por seis semanas após a vacinação contra varicela.

Em crianças cardiopatas, entretanto, essa suspensão pode aumentar o risco de eventos trombóticos.

Por isso, a decisão deve ser sempre individualizada e tomada em conjunto com a cardiologia pediátrica, o CRIE e, quando necessário, a infectologia pediátrica.

O ponto fundamental é não esquecer ou abandonar a vacinação. Crianças em uso crônico de AAS estão entre as indicações formais do CRIE para a vacina contra varicela, justamente porque a infecção natural pode ser ainda mais perigosa nesse grupo.

Vacinas DTP e DTPa

Crianças com cardiopatias crônicas que apresentam risco de descompensação durante episódios de febre podem ter indicação da vacina tríplice bacteriana acelular, a DTPa, em substituição à vacina DTP de células inteiras.

A substituição depende dos critérios estabelecidos pelo Manual dos CRIE e da avaliação da equipe responsável.

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Onde tomar as vacinas especiais?

Boa parte das vacinas pode e deve ser aplicada na sala de vacinação da Unidade Básica de Saúde mais próxima, onde os imunizantes do calendário básico estão disponíveis gratuitamente.

Quando a criança precisa de vacinas além do calendário de rotina, esquemas mais completos, vacinas combinadas específicas ou imunobiológicos que não são oferecidos diretamente na UBS, entra em cena o CRIE.

Os Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais são unidades do SUS criadas para atender pessoas com condições clínicas especiais, incluindo crianças com cardiopatias crônicas.

Essas unidades oferecem gratuitamente imunobiológicos especiais conforme os critérios definidos pelo Manual dos CRIE.

O que levar para o atendimento no CRIE?

Para acessar o CRIE, a família geralmente precisa apresentar:

  • Relatório médico com o diagnóstico da criança;
  • Código da Classificação Internacional de Doenças, o CID;
  • Justificativa médica para o imunobiológico solicitado;
  • Caderneta de vacinação atualizada;
  • Documentos pessoais da criança;
  • Exames relevantes, quando solicitados.

O atendimento depende dos critérios técnicos, da idade, do diagnóstico e da disponibilidade dos imunobiológicos.

Vacinação antes da cirurgia cardíaca

Sempre que possível, a caderneta de vacinação deve ser revisada antes de uma cirurgia eletiva.

Essa revisão permite atualizar vacinas em atraso e oferecer doses adicionais quando houver indicação, com tempo suficiente para que a resposta imunológica se estabeleça antes do procedimento.

Não existe uma única regra sobre o intervalo entre a vacinação e a cirurgia. A decisão depende:

  • Do tipo de vacina;
  • Do estado clínico da criança;
  • Da proximidade do procedimento;
  • Do tipo e da complexidade da cirurgia planejada.

A avaliação deve ser feita em conjunto pela equipe cardiológica e pelo pediatra, com apoio do CRIE quando necessário.

Vacinação depois da cirurgia, de internações prolongadas ou de transfusões

Depois de cirurgias cardíacas, internações prolongadas em UTI, uso de ECMO, transplante ou tratamentos com hemoderivados, pode ser necessário reavaliar o calendário vacinal.

Algumas situações podem exigir:

  • Atualização das doses em atraso;
  • Reavaliação da resposta vacinal em casos selecionados;
  • Adiamento temporário de vacinas de vírus vivo atenuado;
  • Reorganização dos intervalos após o uso de imunoglobulinas;
  • Esquemas reforçados após transplante.

O acompanhamento com pediatra, cardiopediatra e, quando necessário, infectologista pediátrico e equipe do CRIE é o caminho mais seguro para reorganizar o plano de vacinação.

vacina infantil em crianças com cardiopatia

A família também precisa estar vacinada

Esse ponto costuma ser esquecido, mas é fundamental.

Quando uma criança cardiopata apresenta limitações para receber determinadas vacinas, sua proteção passa a depender ainda mais das pessoas ao redor.

Essa estratégia é conhecida como cocoon, ou estratégia de casulo: cercar a criança de pessoas vacinadas.

Pais, irmãos, avós, babás, professores e profissionais de saúde que convivem com a criança devem manter o calendário vacinal em dia, com atenção especial para:

  • Influenza, anualmente;
  • COVID-19, conforme a recomendação vigente;
  • Tríplice viral;
  • Varicela;
  • Coqueluche, por meio da dTpa, especialmente para adolescentes, gestantes e adultos que convivem com bebês.

Vacinar a família também é uma forma de proteger a criança cardiopata.

Perguntas frequentes sobre vacinação em crianças cardiopatas

A vacina pode sobrecarregar o coração?

Não. A imensa maioria das vacinas é segura para crianças com cardiopatia.

O que sobrecarrega o coração de maneira muito mais perigosa são as infecções que essas vacinas ajudam a prevenir.

Meu filho é cardiopata. Ele pode tomar vacina?

Na maioria dos casos, sim.

Algumas situações exigem avaliação individualizada, como imunossupressão, transplante recente ou pós-operatório muito próximo. Entretanto, a regra geral é manter a vacinação em dia.

Não é melhor esperar a criança ficar mais forte?

Não. Esperar pode deixar a criança vulnerável justamente no período em que ela apresenta menor reserva para enfrentar uma infecção.

Quando existe uma contraindicação real ou necessidade de adiamento, a própria equipe assistente orienta a família.

Quando não há contraindicação, o melhor momento é aquele definido pelo calendário e pela avaliação médica.

E se a vacina causar alguma reação?

Reações leves, como dor no local da aplicação, febre baixa e sonolência, podem acontecer, assim como ocorre com outras crianças.

Reações graves são raras. Na grande maioria dos casos, o risco de não vacinar é muito maior do que o risco de uma reação vacinal.

Crianças cardiopatas precisam de vacinas diferentes?

Além das vacinas de rotina, algumas crianças cardiopatas podem ter indicação de vacinas especiais, doses adicionais ou imunobiológicos específicos oferecidos pelo CRIE.

A necessidade depende do tipo de cardiopatia, da repercussão clínica, da idade, do histórico vacinal e de outros tratamentos realizados.

A vacinação precisa ser suspensa antes da cirurgia cardíaca?

Não existe uma orientação única para todos os casos.

Algumas vacinas podem ser aplicadas normalmente antes do procedimento, enquanto outras podem precisar de um intervalo específico.

A decisão deve ser tomada pela equipe responsável pela criança.

Vacinar é proteger oportunidades

Vacinar uma criança cardiopata não é apenas cumprir uma obrigação do calendário.

É reduzir riscos de internação, proteger a janela para uma cirurgia eletiva sem adiamentos, preservar oportunidades de crescimento, reabilitação, retorno à escola e desenvolvimento.

É cuidar do coração de uma forma que poucos exames conseguem fazer.

Cada criança tem uma história, um diagnóstico e uma trajetória clínica únicos.

Por isso, o plano vacinal precisa ser individualizado, pensado com a equipe que conhece o caso e atualizado conforme as recomendações vigentes.

Essa revisão é especialmente importante antes de cirurgias, transplantes, mudanças no tratamento e introdução de medicamentos imunossupressores.

Se você tem dúvidas sobre o calendário de vacinação do seu filho ou da sua filha, converse com o pediatra e com a equipe de cardiologia pediátrica.

Peça uma revisão do cartão de vacinação, pergunte sobre o CRIE e leve a caderneta a cada consulta. Vacinar também é cuidar do coração.

Referências técnicas

  • Sociedade Brasileira de Imunizações. Calendário de Vacinação SBIm Criança 2026/2027. Disponível em: sbim.org.br.
  • Sociedade Brasileira de Imunizações. Calendários de Vacinação SBIm para Pacientes Especiais. Disponível em: sbim.org.br.
  • Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento do Programa Nacional de Imunizações. Manual dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais — CRIE. 6ª edição. Brasília: Ministério da Saúde, 2023.
  • Brasil. Ministério da Saúde. Programa Nacional de Imunizações — Calendário Nacional de Vacinação. Disponível em: gov.br/saude.
  • Brasil. Ministério da Saúde. Guia de estratégia contra o vírus sincicial respiratório — diretrizes para uso de nirsevimabe e transição do palivizumabe.
  • Sociedade Brasileira de Pediatria. Recomendações de imunização em pediatria e documentos técnicos vigentes do Departamento Científico de Imunizações.

As recomendações de vacinação são revisadas periodicamente pelas sociedades médicas e pelo Ministério da Saúde.

As informações deste texto refletem as diretrizes vigentes no momento da publicação.

O plano vacinal de cada criança deve ser individualizado e definido em conjunto com o pediatra, o cardiopediatra e, quando necessário, com a equipe do CRIE.

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Gislene Gonçalves

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